sábado, 25 de junho de 2016

A Revolta do Biscoito Solitário(The Lone Cookie Uprising)

A Revolta do Biscoito Solitário(The Lone Cookie Uprising)
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Biscoito era um rapaz comum de São Paulo. Descendente de japoneses, jogava futebol e gostava de música grunge. Ele sentia a necessidade de ajudar outras pessoas e fazia doações rotineiras mesmo com o pouco dinheiro que recebia imprimindo desenhos em camisetas. Lia livros estrangeiros sobre pessoas comuns, frustradas e sem meios de consolidarem seus sonhos. Mandava esses tipos de livros para outras pessoas pelo correio na esperança de que encontrassem esses meios e falassem com ele sobre suas descobertas. Quase nada acontecia. Pensou e tentou escrever. Depois passar no vestibular. Sentia que algo estava muito errado na sociedade. Falava sobre indígenas quase indefesos perante fazendeiros com suas armas de fogo sendo assassinados em seu próprio país. Estava indignado com a televisão mostrando situações impossíveis, que significavam tanto para o personagem, mas num cenário real não poderiam ter metade da importância que lhes era atribuída.
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O país estava em crise como sempre. Dessa vez era bem aparente. Raras vezes, ou nunca, na história mundial tantos escândalos governamentais apreciavam a visão do público ao mesmo tempo. Calamar, o ex-presidente que fora visto como o maior representante do povo desde o início da civilização, agora estava sob investigação nos maiores roubos de dinheiro jamais vistos por ela. A indicação para cargos que deveriam ser independentes, reguladores e fiscalizadores era feita por quem estava por cima e sem nenhuma responsabilidade obrigatória esses mesmos cargos serviam apenas para proteger quem os havia indicado. Juízes e militares, os profissionais que mais possuíam credibilidade depois dos médicos, trabalhavam pensando apenas no próprio bolso sem nenhuma empatia pelas vidas que deveriam proteger.
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Leis absurdas como a repatriação de recursos com trinta e cinco por cento de multa passavam com facilidade. Quem roubava podia esconder em outro país o seu dinheiro e depois recuperá-lo sem a necessidade de declarações. Essa poderia ser uma armadilha. Mas Biscoito precisava fazer algo. Um amigo de Brasília falava mais do que um papagaio e essa receptividade poderia ser o seu passaporte para uma vida de herói. Falou em passar uns dias na capital. No mesmo instante recebeu o convite da hospedagem. Sua vida de frustrações via uma mudança. Preparou sua mochila com três conjuntos de roupa, escova de dentes, sabonete, toalha e um par de chinelos. Quando amanheceu ele foi comprar a passagem de ônibus e partiu.
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Foi recebido com alegria pelo seu amigo que o acompanhou desde o momento que foi pegar a sua bagagem. Ele só falava em videogame. Parecia um virgem de trinta anos que não podia sair de casa sem a permissão da mãe. Foram até a sua casa que ficava bem perto dos famosos ministérios. Conversaram sobre o ponto crucial do afastamento da presidente Marilda. O ex-presidente Calamar se tornaria ministro mas o áudio da conversa entre os dois se tornou público graças a um juiz que ainda respeitava a profissão que exercia.
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- Grande Ogro né?
- Ogro? Do jogo das cavernas dos dragões?
- Não, porra. O cara que mostrou o telefonema do Calamar pra Marilda.
- Política? Eu moro aqui, mas não manjo muito disso. Ele não virou ministro?
- Não, ele não virou por causa dessa gravação. E agora a presidente cai.
- Se os jogos ficarem mais caros por causa disso eu vou ficar muito puto!
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O computador dele era o melhor objeto da casa. Todo o resto poderia ter sido recuperado perto das casas que existiam nas inúmeras favelas das redondezas que consistiam em noventa por cento da população da capital. Depois de algumas horas de jogatina e conversa Biscoito resolveu apresentar a sua ideia.
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- Aperta soco aê você tá morrendo!
- Não quero mais jogar esse.
- O namorado da minha prima toca em uma banda. Eles tocam aquelas musiquinhas dos seriados da televisão. Vamos no show deles?
- Eu não vim aqui pra isso.
- Você não é viado, é?
- Vamos até o Congresso Nacional.
- Porra! Lá é chato pra caralho! Só se for depois de escurecer. Aí a gente leva vinho também.
- Vou lá agora.
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Partiram e encontraram poucas pessoas na rua. Todos ocupados com os melhores empregos que poderiam sonhar em ter. A maioria andava de carro. Seu amigo dizia que preferia usar as pernas ou então ficaria muito gordo para encontrar o pênis enquanto acessava vídeos pornô na internet.
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Participaram do tour gratuito pelos corredores do poder. Em certo momento estavam próximos da entrada do plenário da Câmara dos Deputados e foi quando Biscoito resolveu tirar da garganta tudo o que viu sobre aquele local durante muitos anos.
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- Vocês não trabalham para o povo! Acham que podem roubar todo mundo e ninguém vai fazer nada? - No mesmo instante o funcionário que apresentava o local chamava os seguranças.
- O que você tá fazendo, cara? Se a gente arrumar problema a minha mãe me mata. Vou sair daqui, seu louco.
- Índios são assassinados diariamente por pessoas ligadas diretamente a vocês! Não finge que não tá me vendo seu deputado ladrão!
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Enquanto tentava fugir do taser ainda proclamou algumas poucas palavras de revolta. E dali foi mandado pra delegacia. Biscoito não podia fazer nada sozinho. Não naquele momento. Depois de passar muitas horas numa cela sua mãe já havia prometido ao delegado por telefone que o traria de volta pra casa. Era o fim do seu sonho. Sabia que não poderia voltar ao Congresso tão cedo. Silenciado ao tentar mudar o que sabia que estava errado, se entregou ao destino inevitável. Falava uma ou duas palavras contra o governo, em casa, pra televisão. Se afastou do amigo e viveu uma vida traumatizada, tendo filhos apenas para criá-los de acordo com o que as histórias das novelas ditavam. Permaneceu escravo do que é indicado pela aparente maioria que, sem questionar, repete diariamente suas ações insignificantes em uma vida que busca objetivos impossíveis e rasos, que nunca serão alcançados.

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Source:

revola
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getting to know the cenario
minister calamar or polvo octopus
president's finger giving important government jobs
judges, military, fiscalization, hairdresser
the president being agressive towards employees
ex-president talking about the inexistence of opposition

deputies spitting on each other
deputies glorifying murderers without retaliation
deputy talking about a military commander and being frowned upon

no-walls terrain
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2 comentários:

GL HF